Assim como Minas são gerais, Psicologias também são várias. Seja por se sustentar em diferentes bases epistemológicas e políticas, ou pelas particularidades que permeiam os estudantes e profissionais, a psicologia tem como característica marcante a diversidade teórica. São incontáveis linhas com inúmeros enfoques que restringem qualquer tentativa de unificação. Esses campos podem ser complementares em alguns pontos, mas também são, por vezes, excludentes. Uma aglutinação dessa diversidade, assim, não poderia se dar senão de forma redutiva. Neste ENEP, o que se pretende é discutir, dentre outros pontos, possibilidades de produção e aplicação do conhecimento pautado no diálogo e no reconhecimento respeitoso das peculiaridades alheias.
É notória, porém, uma atitude irreflexiva de adoção de verdades teóricas, na qual muitos estudantes “abraçam” um campo e dele fazem sua bandeira. Muitas vezes o próprio formato de ensino acadêmico corrobora para a formação de tais consumidores acríticos de teorias, tão seguros da causa defendida que se tornam inábeis em dialogar e construir novos saberes.
O que está implicado, em nossa profissão, é o comprometimento com pessoas, e não teorias. E, sob um olhar atento, é bastante claro que a realidade é irredutivelmente complexa. Como poderia, então, uma visão dogmática dar conta desta multiplicidade? O movimento nesta, na verdade, é outro; se nega a pluralidade em prol de uma explicação simplista: se encontra a causa e o efeito e, com isso, se esquece o homem. É desejável, pois, que se desenvolva uma postura crítica para que se possa duvidar do próprio conhecimento, pois este, ao mesmo tempo em que nos possibilita uma análise mais aprofundada, também fecha nossos olhos aos outros possíveis, nos limita.
A ciência pela ciência já foi (e ainda é) exaustivamente criticada em todo o mundo. Todavia, essa questão parece estar longe de poder ser considerada superada. Ainda é sensível na academia (especialmente em estudantes) a primazia da explicação sobre o problema, da teoria sobre a realidade, da ciência sobre a vida comum. Assim, nunca é demais lembrar o porquê de se fazer ciência: além da incansável busca por status e verbas para pesquisas, qual era mesmo o motivo?
Sendo assim, busca-se incitar o debate interdisciplinar e, inclusive, o debate sobre si próprio, analisando as visões, valores e idéias que, de certa forma, nos constituem. Não basta, afinal, o questionamento ao conhecimento que se produz, é necessário também que se indague sobre si mesmo, que se coloque na análise o produtor do conhecimento.
E, aqui, chegamos a um ponto chave: por que realizar um ENEP? Porque um Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia mobiliza tanta gente? Ainda que não exista uma psicologia, nos dizemos estudantes de psicologia, nos sentimos como tal, independentemente de qual dos incontáveis caminhos seguirmos ou inventarmos. E, ainda que vivamos em diferentes regiões do país, estamos sujeitos às mesmas diretrizes e programas governamentais referentes ao ensino superior como, por exemplo, REUNI, ProUni e a expansão universitária como um todo.
O XXII ENEP visa fomentar, portanto, reflexões sobre a Psicologia no país não só em termos políticos e acadêmicos, mas também sobre o sujeito por trás do estudante-profissional e sua identidade como tal. Afinal, entende-se que as diferentes esferas abordadas possuem intrínseca relação, constituem o mesmo trem* do qual se fala, o mesmo sujeito múltiplo e diverso: o estudante de psicologia. Ao propor uma reflexão ativa sobre tal temática, esta edição do ENEP não visa, pois, a proposição de soluções herméticas, mas sim de debates, de diálogos.
*Expressão idiomática típica do dialeto mineiro usada para designar praticamente qualquer pessoa, objeto, ação ou acontecimento.
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